"Mulher Trans" vs "Trans Feminino" vs "Mulher"



No ambiente transgênero, como o dito em outro artigo termos novos surgem e outros desaparecem continuamente e existe bastante complexidade referente aos varios tipos existentes dentro do espectro transgênero. Dentro do subgrupo transsexual, isso não é diferente.

Referente aos termos "mulher trans", "trans feminino" e "mulher", eu vejo da seguinte forma: Os três se referem a alguém com uma identidade de gênero feminina, mas existem diferenças fundamentais do ponto de vista físico. Eu não tenho interesse de me basear unicamente na parte mental, da identidade de gênero (que é subjetiva), quero falar da parte física; pois se formos nos basear apenas em subjetividade para definir as coisas qualquer pessoa pode afirmar ser mulher trans mesmo que nem sempre o seja. Poderia inclusive afirmar ser Napoleão reencarnado e ninguém poderia negar. Temos de nos basear também em fatos concretos e facilmente observáveis além do quesito psicologia, buscar um meio-termo. Ao menos quando iniciei a minha transição uma mulher trans precisava passar por ao menos um psicólogo para confirmar a sua condição ou ao menos para fazer a cirurgia de confirmação de gênero; não era de qualquer jeito. Ser mulher trans é algo que impacta negativamente nossas vidas de forma significativa até transicionarmos completamente. Não existiamos como mulheres trans antes da tecnologia médica para isso ser desenvolvida, viviamos escondidas ou expressavamos isso de outras formas; eramos meramente transgêneros apesar do termo ainda não existir. Jamais seremos a maioria da população do planeta, norma, somos exceção, somos diferentes, identidades de gênero nascidas em corpos do sexo errado.

As mulheres cis (fisicamente de nascença) em sua grande maioria todas possuem uma vagina, elas não possuem um pênis. Poucas possuem uma formação irregular da genitália. Aquelas de orientação sexual lésbica frequentemente usam um pênis artificial para se dar prazer e o dar a sua parceira; mas isso não muda que possuem uma vagina e que a grande maioria não desejam ter um pênis real permanentemente preso a seus corpos. A grande maioria das mulheres trans (eu inclusa) deseja aproximar o seu corpo o máximo possível do corpo de uma mulher cis, e isso inclui uma cirurgia de confirmação de gênero, reafirmação ou "mudança de sexo". As cirurgias são um meio, não um fim. Algumas não o fazem por questões financeiras, de saúde ou outras mas se perguntadas sobre elas dirão que desejam a cirurgia. Muitas mulheres trans morreram no passado e talvez ainda morram hoje em dia (apesar de mais raro) por uma cirurgia mau feita, mas a cirurgia é uma necessidade para elas a tal ponto que algumas morrerem felizes de ao menos morrerem sem um pênis. Para mim isso é uma "mulher trans".

Eu mesma só consigo continuar vivendo na perspectiva de concluir a minha transição mesmo sob risco de morte; desde criança eu não gosto de ter uma genitália masculina. Uma mulher trans sente uma grande dor psicológica por não possuir uma genitália feminina, e algumas inclusive se matam por isso. Isso independe de prazer sexual. Para várias de nós mulheres trans que em sua maioria desejam uma transição completa, é ofensivo dizer que se é mulher trans enquanto não se tem problema com o seu pênis. Óbvio que eu nem sempre tive tanta certeza, foi um processo de descoberta no qual foi importante eu iniciar a terapia hormonal e depois as outras cirurgias, apenas após cada uma eu obtia um entendimento melhor sobre mim mesma. A cada etapa eu fui deixando de me sentir infeliz e comecei a me sentir feliz comigo mesma e isso me fazia ser melhor com relação a outras pessoas e seres vivos no geral. Essa progressão positiva simultanea a progressão da feminização física é outro sinal do que considero ser uma mulher trans.

Se alguém disser que é uma mulher trans mas que gosta ou é indiferente ao fato de ter um pênis, então para mim tal pessoa seria uma "trans feminina" e não uma "mulher trans", pessoas que preferem ter as características físicas dos dois sexos em graus variados, por mais feminina que seja psicologicamente. Se eu me sentisse assim, seria como eu me denominaria; eu não me denominaria do que não se aplica totalmente a mim. Não têm fundamentação física para afirmar o contrário. Dizer o contrário seria como dizer que a terra é plana e que ovos tem pêlos e esperar que os outros aceitem isso; e não raro quem sustenta isso são as próprias pessoas que se identificam dessa forma. Elas alegam que "pessoas trans transcendem rótulos e são infinitas em suas identidades"; algo que normalmente e verdade, mas que neste contexto me soa como subterfúgio para fugir de fatos concretos e não abstratos. Também me soa como meia verdade o argumento de que "as pessoas transfóbicas já são contra nós e não devemos ficar umas contra as outras" na tentativa de fugir do fato, apesar de frequentemente ter sido a própria pessoa a iniciar a discussão ao tentar forçar o seu reconhecimento como uma mulher trans. Já não basta serem reconhecidas como tendo uma identidade de gênero feminio e como portadoras de um corpo em sua maior parte feminino? Por que desonrar a memória das mulheres trans que morreram durante a cirurgia, ficaram sequeladas e o sofrimento no período de recuperação pós-cirurgico daquelas que sobreviveram e sobrevivem ? Não faz sentido. As vezes ainda me vem com um "quem é você para dizer o que não é uma mulher trans", e eu poderia responder com quase a mesma pergunta: "quem é você para dizer o que é uma mulher trans"... diferentes interpretações como eu disse antes.

Quando realmente trans muitas vezes são pessoas confusas que ainda estão descobrindo o seu lugar no espectro trans, as vezes simplesmente não conhecem um termo adequado para si ou as vezes o termo nem existe ainda, isso quando não foram ensinadas a se denominarem assim. Quando não são trans, são homens sem intenções maliciosas (travestis por exemplo) ou mesmo com (estupradores), apesar de que aparentemente o último caso é raro. Alguns conscientemente o fazem, outros tem problemas psicológicos que interferem em seu julgamento. Ser uma minoria dentro de outra minoria não é argumento. Você tem todo o direito de discordar, discussões saudáveis as vezes trazem novas idéias para ambos os lados; mas sem argumentos concretos convincentes o suficiente para fazer os outros reconsiderarem suas opiniões a respeito, a sua opinião para mim e muitos outros não passará disso, uma opinião. Não terá fundamento na realidade.

Não me torna hipócrita que no começo da transição outras mulheres trans (ou que se consideravam tal) zombavam de mim por achar incorretamente que eu não era mulher trans pela orientação sexual (lésbica), jeito de falar, linguagem corporal e jeito de se vestir. É ridiculo dizer na tentativa de fugir da discussão ao redor da questão corporal sexual que eu estaria "replicando preconceitos". Eu não irei lhe agredir fisicamente ou zombar por você ser uma outra modalidade de identidade feminina, eu não tenho interesse de questionar isso porque isso é pessoal; e assim como muitas trans eu luto por respeito para pessoas como nós do meu jeito. É algo bem diferente, estou falando puramentes de uma questão de termos, categorias. Sempre foi fato que mulheres cis podem ser hetero ou lésbicas (e outras), que nem todas tem um corpo delicado, que nem todas se vestem, gesticulam ou falam de forma considerada feminina; e como eu disse antes, principalmente é fato que as mulheres de nascença em que muitas mulheres trans querem fisicamente se espelhar quase todas possuem uma vagina funcional. Talvez minha opinião a respeito mude um dia, mas igualmente talvez não.

Agora sobre outra questão:

Algumas mulheres trans após a transição esquecem de que são trans e a todo custo querem transmitir que são mulheres cis para as outras pessoas, as vezes inclusive mentindo para outras pessoas trans e as negando ajuda quando estas pedem. Devo informar que a sua estrutura óssea ainda é masculina, inclusive os seus genes. Ao fim cada um faz o que quiser de sua vida, mas eu particularmente prefiro me definir como "mulher trans" e não "mulher" ou "mulher cis"; inclusive alguns conhecidos meus cis ou não me sugeriram me considerar uma mulher comum, mas eu não sou. Sou uma identidade de gênero feminina presa em um corpo do sexo masculino desde o nascimento, que atualmente está com o seu processo de transição quase concluído. Esse é o meu diferencial como pessoa e profissional. Isso é um fato concreto, fingir que sou cis não. Isso não significa que falarei que sou mulher trans o tempo todo também, alguns ambientes são hostis a isso.



Última atualização: 2022/02/14